ptenfrdeitrues

Em passos lentos caminhava o velhinho

Pisando as pedras nuas e frias do caminho

Ao ombro, sempre o seu velho acordeão

Dormia debaixo das estrelas ao orvalho

A rompida samarra como agasalho

Por companhia a pobreza, a velhice e a solidão

Passaram anos e anos e ele ali sentado

No chão o desabado chapéu p’ra arranjar algum trocado

Tocava com ternura o velho acordeão

Por cada moeda um gesto e um muito obrigado

Seu olhar triste, tímido e envergonhado

Cabeça baixa e olhos fixos no chão

Sem cansar tocava seu instrumento

Algo desafinado pelo uso e pelo tempo

Pobre velho sem carinho, sem sorte nem sonhos

Um cigarro, um cibo de pão p’ra sobreviver

O habitual gesto com a cabeça p’ra agradecer

No rosto uma lágrima cai dos seus olhos tristonhos

Seu lugar de sempre está vazio, o velhinho morreu

Talvez esteja tocando p’rós anjos no céu

Que de pé aplaudem vezes sem fim

Deixou saudade, o velhinho do acordeão

A sua imagem, os seus gestos ficaram no meu coração

E o som da velha harmónica dentro de mim

A todos estendeu a mão, por necessidade

Aos velhos, aos novos…à caridade

Só Deus sabe o quanto a sua vida foi atroz

Sem abrigo, sem beira nem beiral

Pena que a sorte não é p’ra todos igual

Quem sabe? se um dia o velhinho é um de nós

Para quem pensa que é mais nobre

Sem saber, porventura é bem mais pobre

Que o pobre velho que tocava acordeão

Ser pobre não é defeito nem pecado

Vale mais ser pobre, honesto e honrado

Ser pobre é não ter sentimentos nem coração

 

Outubro – 2018, Fernando Carvalho