Definitivamente o mundo corre perigo. Assistimos, infelizmente já hoje, a vários fenómenos que nos vão dando conta das profundas alterações a que o Planeta tem sido sujeito muito por culpa da ação humana. Eu diria mais, da ação e da inação, porque à ação humana que levou o planeta a esta situação pré catastrófica, junta-se agora o que a humanidade não faz para remediar ou tentar inverter este horizonte de autodestruição que se nos afigura bem mais próximo do que alguma vez imaginávamos.
Quando todo o mundo procura encontrar soluções para um problema que é de todos, eis que, numa decisão sem precedentes e perfeitamente incompreensível, os EUA, pela voz e vontade do seu presidente, porque, pessoalmente não acredito que esta decisão expresse alguma vontade inequívoca da sociedade americana em geral, mas antes duma minoria de interesses económicos a que infelizmente o presidente dos estados unidos dá voz, decide abandonar, antes mesmo de entrar em vigor, o acordo de Paris, um tratado que rege as medidas de redução de emissões de dióxido de carbono a partir de 2020 e fá-lo no momento em que, por exemplo, um grande construtor europeu de automóveis acaba de anunciar o fim da produção de motores de combustão daqui a apenas 13 anos, numa clara aposta nas energias do futuro, nas energias renováveis, um caminho aliás, já preconizado por outros construtores e outras indústrias.
É preciso salientar que o acordo de Paris foi ratificado por mais de 150 países e que os EUA são nada mais nada menos que o maior contribuinte à escala global para as emissões de dióxido de carbono e, para piorar ainda mais a situação, numa decisão meramente política e sem olhar às consequências, tenciona mesmo ativar a exploração do carvão em alguns Estados como pagamento dos votos recebidos nas eleições presidenciais. Claro que haverá com certeza outras razões bem mais fortes para esta tomada de posição, nomeadamente os “lobbies” da indústria petrolífera, que como sabemos é muito forte nos Estados Unidos, e não apenas a ideia peregrina e ridícula de que o aquecimento do global é uma invenção dos chineses para prejudicar a economia americana, mas enfim, vindo de quem vem, não constitui uma surpresa por aí além.
Chegado à idade a que cheguei e olhando para o passado e até para o presente, o que me custa mesmo é fazer contas ao mundo e ao país que os da minha geração não vão deixar aos filhos e netos e perceber que estes não vão ter grande sorte com o que vão herdar, por este caminho, o futuro não lhes reserva o planeta que eles mereciam e a que tinham direito.
Pensando um pouco no que vivi e no que este mundo e sobretudo este país viveu, ao longo da minha vida fui assistindo a muitas mudanças quase todas para melhor, nomeadamente a mudança de um país a preto e branco, tristonho, onde a pobreza era o pão nosso de cada dia, a ignorância uma fatalidade e a liberdade uma utopia por força de uma ditadura obscura e repressiva, para um país a cores, moderno, desenvolvido, onde o conhecimento, a educação, a tecnologia, os direitos humanos chegaram a todos. Houve ainda, durante estes meus anos de vida, outras oportunidades para viver outros acontecimentos históricos que aconteceram por esse mundo fora que me faziam crer que o destino estava a favor da humanidade, que o futuro estava ali, à mão de semear, com oportunidades para todos, os presentes e os futuros.
Puro engano. Algures, pelo caminho, a humanidade deixou-se deslumbrar pelas facilidades e explorou o planeta até ao tutano, sem olhar a meios, esquecendo-se que haveria custos que era preciso prevenir, que o sítio onde vivíamos também precisava de ser cuidado, respeitado e sobretudo preservado, por isso assisti e estou a assistir também à maior e infelizmente pior mudança de todas, pelo impacto negativo que representa para a vida de todos nós, que são as alterações climáticas.
Pude assistir à degradação gradual do meio ambiente, ao abate sem controle de florestas, à contaminação de águas pelo uso desenfreado e sem controle de pesticidas, inseticidas e outros produtos químicos na agricultura e na indústria, à poluição dos rios, à proliferação dos incêndios e o correspondente contributo para os gases com efeito de estufa e consequente aquecimento global, ao crescimento desmesurados de indústrias de plástico e outros produtos que o planeta e as espécies não conseguiam absorver. Ultrapassamos em larga escala a capacidade de renovação deste espaço onde vivemos chamado Terra.
Sentimos já hoje na pele, as consequências dessa exploração desenfreada dos recursos naturais. A verdade é que quando olho para os meus filhos e sobretudo para o meu neto, não gosto desta sensação de que a minha geração teve oportunidades que as próximas gerações não terão. Mas custa-me ainda mais quando percebo e reconheço que isso não seria propriamente uma inevitabilidade e que apenas a ambição humana, sobretudo de alguns homens com h pequeno nos fez chegar a este estado de coisas. Homens que, embora tendo o poder de devolver alguma esperança à humanidade, que mesmo tendo à sua disposição outras alternativas e meios para produzir energias renováveis e produtos biodegradáveis e amigos do ambiente optaram, tal como hoje, pelo caminho mais barato e fácil de obter riqueza, fazendo tábua rasa dos avisos da natureza e com total desprezo pela vida das pessoas.
Claro que a mim, simples cidadão comum, me escapam algumas das grandes motivações destas pessoas, tenho plena consciência de que não sei nem da missa a metade, mas há algo que para mim é cada vez mais evidente: vão deixar uma fatura bem pesada para as gerações vindouras pagarem. Gerações que vão pagar caro por um crime que não cometeram.
Vivi tempos de mudança que prometeram muito, mas que pelo andar da carruagem, vão certamente deixar muito pouco, o que reflete um enorme falhanço da humanidade.
Se não soubemos cuidar das nossas coisas, também não as merecemos, mas as novas gerações, que culpa têm? Será que teriam cuidado melhor das coisas deles? Não irão ter essa opção? Oxalá que sim. A minha fé na reversão do processo de destruição da natureza sofreu um forte abalo com esta decisão do governo americano, mas espero que o bom senso impere e que todos se unam na procura de soluções para um problema que muitos tendem ainda a desvalorizar, mas que já está bem presente nas nossas vidas e de forma bem trágica.
Pedrógão Grande é demasiado trágico para servir de exemplo seja para o que for, mas reduz à insignificância o poder dos homens perante a Natureza.
Jorge Martins