É um facto que todos nós envelhecemos desde que nascemos. No entanto, creio que passamos a maior parte da nossa vida a ignorar esta realidade, porque esta só entra verdadeiramente na nossa cabeça, quando nos aproximamos um pouco mais dessa fase da vida a que chamamos terceira idade, comece ela aos 60, aos 65 ou aos 70 anos.
O que importa é que devemos entender o envelhecimento como um processo natural da vida que arrasta consigo alterações físicas e mentais que mais tarde ou mais cedo vão implicar necessidades especiais. Eu sei que é difícil aos 20, 30 ou 40 anos reconhecermos este processo de envelhecimento em nós próprios, reconhecemo-la mais depressa nos outros, muitas vezes em pessoas com a mesma idade que nós ou pouco mais, mas a verdade é que o envelhecimento acontece, é imparável e é para todos.
Vamo-nos iludindo com essa história bonita e confortável de que o que conta é manter o espírito jovem, mas o problema é quando chega a hora em que precisamos dum apoio para ir vivendo, dum carinho, de alguém que esteja a nosso lado quando não conseguirmos levantarmo-nos da cama, quando precisarmos de nos agarrar às costa da cadeira para nos movermos pela casa, agarrados às paredes para ir à casa de banho, ou até quando um simples golo de água ou uma migalha de pão nos engasga, e precisamos de alguém por perto para nos dar uma palmada nas costas, alguém que tenha o discernimento suficiente para ligar o 112 naquela hora. O problema é quando precisamos de alguém que nos lembre que são horas da refeição ou de tomar o comprimido para a memória ou para outra qualquer maleita que hoje em dia são cada vez mais frequentes e aparecem cada vez mais cedo, todos temos exemplos mais ou menos próximos, um amigo, um familiar ou um mero conhecido que nos fazem assentar os pés no chão e nos lembram que as coisas não acontecem só aos outros.
Bem, é agora que começam a pensar: credo, este tipo tem 58 anos e, ou está profundamente deprimido ou é um verdadeiro profeta da desgraça.
Nada disso, simplesmente reflito sobre um assunto que, por força da minha atual atividade profissional, me tem tocado mais de perto e que tem a ver com um problema que afeta cada vez mais a nossa sociedade, com uma população cada vez mais envelhecida, e com o papel cada vez mais importante que os lares de idosos representam para a sociedade, especialmente para os idosos, e também para todos os que não sendo idosos, precisam de cuidados especiais e que são infelizmente cada vez mais como já referi.
Eu sei que muitas pessoas ou famílias encaram os lares de forma depreciativa como um depósito onde se colocam os idosos para morrer, comparam os lares ou centros sociais aos albergues ou asilos do passado. Uma comparação sem sentido e absolutamente errada.
Os lares representam na sociedade atual, talvez não a única mas seguramente a melhor alternativa para as famílias que não têm condições para cuidar dos seus idosos e para que os idosos não sintam o peso da solidão, oferecendo-lhes condições e qualidade de vida, num ambiente calmo e confortável, onde são desenvolvidas atividades de apoio social, favorecendo, dentro do contexto possível, o convívio e a ocupação dos tempos livres e, em todas as circunstâncias, alimentação adequada, cuidados de saúde, higiene e bem estar
Os lares de idosos de hoje, aqueles que verdadeiramente estão vocacionados para exercer essa atividade, ajudam a retardar e a estabilizar o processo de envelhecimento, preocupam-se em preservar e incentivar a relação intrafamiliar, promovem a convivência social através do relacionamento entre as pessoas idosas, e destas com os familiares e amigos, com os funcionários e com a comunidade.
Os lares de idosos de hoje contam com técnicos habilitados e capacitados nas diferentes áreas como a psicologia, educação social, animação sociocultural, nutrição, enfermagem, fisioterapia, entre outros, que em conjunto proporcionam o bem estar e a qualidade de vida dos idosos, valências estas, difíceis de proporcionar mesmo nas famílias economicamente desafogados, até porque a verdadeira pobreza muitas vezes tem mais a ver com a solidão a que são votados os idosos, mesmo no seio da família, do que com o dinheiro.
Os lares de hoje não são meros depósitos de idosos como oiço muitas vezes dizer por aí, são isso sim, a melhor alternativa com qualidade e dignidade quando se verifica ausência de autonomia e cuidadores disponíveis nas famílias para cuidar dos seus idosos. Temos todos que perceber, que esta fase da vida é única e traz inevitavelmente modificações físicas e psicossociais que devem ser respeitadas, que não deve ser vista como negativa e que respeitar o idoso é respeitar o nosso próprio futuro.
Deixar os idosos horas a fio sozinhos, abandonados quantas vezes à sua sorte, mesmo que seja nas suas próprias habitações é, isso sim, exclusão. Os lares, os verdadeiros lares, representam um fator de reintegração social, de valor humano incalculável, num contexto de necessidades especiais que a sociedade e as famílias por si só são incapazes de prover aos seus idosos.