ptenfrdeitrues

Vinho verde de Cavez, não deixe a vida passar em branco, abra um tinto…

Foi este o slogan postado no Facebook de alguém que me sugeriu a ideia de escrever sobre um assunto interessante e que ao mesmo tempo também diz respeito à nossa terra.

A cultura da vinha e do vinho, marca naturalmente e desde há muitos séculos a própria cultura portuguesa. Algumas investigações arqueológicas e documentais apontam para as civilizações fenícia e grega a importação desta cultura, no séc. VIII A.c., para a Península Ibérica e que perdura ainda nos dias de hoje.

A cultura do vinho é uma atividade de extrema importância para muitas regiões, não só em Portugal, mas também no resto do mundo. É, simultaneamente, um sector económico relevante e um dos prazeres capitais da vida. Serve também muitas vezes, é certo, para fazer as pessoas sentirem-se mais perto do céu ou esquecerem as agruras da vida, mas esse é um aspeto lateral ao propósito que verdadeiramente me traz aqui.

O vinho e a sua cultura têm tido desde sempre uma inquestionável importância para a economia, sobretudo a economia familiar em regiões predominantemente agrícolas como é o caso da nossa e em particular a região de Cavez, que é aquela sobre a qual me quero debruçar.

O concelho de Cabeceiras de Basto faz parte da sub-região de Basto, uma das nove sub-regiões que compõem a Região Demarcada dos Vinhos Verdes, que se estende por todo o noroeste de Portugal, região tradicionalmente conhecida como Entre Douro e Minho, geograficamente a maior Região Demarcada Portuguesa e uma das maiores da europa. Significa isto, que Cavez está inserida numa região bem definida, onde se produz vinho com características únicas no mundo.

De facto, não existe vinho verde em mais lugar nenhum, a não ser nestas nove sub-regiões que constituem a já referida Região Demarcada dos Vinhos Verdes da qual a nossa terra faz parte, o que o torna especial e, mais do que isso, com um enorme potencial económico que poderia e deveria ser melhor aproveitado em prol da economia local, como acontece de resto noutras regiões do país onde se produz vinho.

No que diz respeito à nossa região de Cavez, o vinho verde foi durante muito tempo, o modo de subsistência de muita gente que se dedicava à agricultura que era por assim dizer a maioria da população da nossa freguesia.

Eu ainda sou do tempo em que a agricultura era a terço, isto é, toda a produção de um ano de trabalho era dividida em três partes, duas para o patrão ou proprietário das terras e uma para o caseiro. Uma forma desigual e injusta que perpetuava as dificuldades económicas dos agricultores que na maior parte dos casos ansiava por uma boa colheita de vinho para fazer face ao sustento da família e se o ano fosse mau, era mais um ano de muitas dificuldades e privações.

Apesar de a cultura do vinho se confinar às bordaduras dos campos, para se aproveitar os terrenos para outras atividades, segundo a agricultura dessa época, era o vinho que proporcionava o rendimento mais elevado em termos materiais (dinheiro) e por isso, era nele que os agricultores depositavam todas as esperanças de um ano de trabalho para obterem um complemento económico familiar.

Pese embora a cultura intensiva de uma grande variedade de outros produtos agrícolas, nomeadamente batata, feijão e milho, quase sempre para consumo próprio, era do vinho que provinha o dinheiro para pagar a mercearia, a roupa e o calçado entre outras necessidades.

Por essa altura, o vinho vendia-se a granel, às pipas ou ao garrafão, sobretudo para as tabernas ou casas de pasto que proliferavam por aí, quase porta sim porta sim. A procura superava largamente a oferta e o vinho vendia-se com mais ou menos facilidade.

Mas o vinho é um produto sujeito à lei da oferta e da procura e as suas crises são um reflexo disso mesmo. Com a natural evolução sociocultural e outras transformações que foram, entretanto, acontecendo na sociedade e ainda com o evento da entrada de Portugal na Comunidade Europeia tudo mudou.

Obedecendo a normas e diretivas europeias, o governo acabou por proibir a venda de vinho sem rótulo ou certificação, e o tradicional comercio de vinho ao quartilho, ao litro ou à canada começou a definhar. Aliado ainda a uma mudança radical nos hábitos das populações, devido entre outras, a restrições morais e sociais e a políticas de saúde pública, este processo ditou, ou pelo menos acelerou, o desaparecimento das casas de pasto, tabernas e estabelecimentos afins que foram durante muitos anos os grandes consumidores/compradores do vinho produzido na nossa região, e por consequência, o consumo à pipa ou ao garrafão, foi por aí abaixo e, pode dizer-se, passou à história, ou quase.

É por essa altura que começámos a ouvir, e com razão, diga-se de passagem, que “o vinho não se vende, ninguém o quer, não dá para o sulfato, prefiro deitá-lo pela levada abaixo do que vendê-lo ao preço da uva mijona”, etc. O problema, é que passados todos estes anos, continuamos a ouvir a mesma ladainha, hoje, tal como ontem, “o vinho não se vende, não dá para as despesas, mais vale estar quieto do que podar as vides, não vale a pena sulfatar”, bla, bla, bla.

Mas a verdade é que, ainda assim, tendo plena consciência desta realidade, os nossos produtores, salvo algumas raras exceções, tão raras que quase se podem contar pelos dedos de uma mão, continuam a encarar a cultura da vinha com o mesmo caracter de cultura local, de subsistência, comercialmente pouco explorada e em muitos casos sem qualquer orientação qualitativa.

No entanto, é curioso verificar, por mais paradoxal que possa parecer, olhando para a nossa paisagem rural de hoje, que a vitivinicultura evoluiu significativamente. Passou-se das bordaduras dos campos para o aproveitamento total dos terrenos em detrimento de outras culturas, as plantações delineadas no sentido da otimização dos recursos e na facilitação dos trabalhos de colheita e aproveitamento.

Regalamos a vista, quando olhamos à nossa volta e vemos as vinhas modernas e bem cuidadas, de castas selecionadas, já que as castas assumem hoje um papel de relevante importância e à qual nem sempre se deu a devida atenção, tendo em conta que são as castas que conferem ao nosso vinho verde as características, qualidades e requisitos capazes de o transformar num produto de excelência, único no mundo, economicamente viável e num negócio capaz de criar riqueza e emprego.

Ou seja, apesar das queixas, as vinhas nascem quase como os cogumelos , produz-se mais e melhor vinho, mas infelizmente, os vinicultores da região e em particular em Cavez, salvo as exceções referidas, como que pararam no tempo (vá-se lá saber porquê) e não acompanharam a evolução socioeconómica e tecnológica que preconizaria talvez, hoje como ontem, as vantagens dum associativismo cooperativo capaz de criar uma marca ou um rótulo para fazer face às normas e às exigências do mercado.

A tradicional postura individualista continua a impedir o passo em frente, a concretização de um qualquer projeto em torno dos interesses de todos, no que diz respeito ao escoamento do produto da vinha produzido por cada um, que tornasse viável a sua cultura e capaz de a constituir como um modo de vida economicamente sustentável.

Uma breve pesquisa pela internet faz-nos saber que a área coberta pelas vinhas de vinho verde corresponde a 15% do total da área vitivinícola portuguesa. Estima-se que existam mais de vinte e cinco mil vinicultores responsáveis pela produção de mais de oitenta e cinco milhões de litros de vinho por ano abastecendo cerca de oitenta mercados de exportação, principalmente para EUA, Alemanha e França. Um enorme mercado global muito capaz de escoar grande parte da produção de vinho da nossa terra. Para isso teria que obedecer naturalmente aos critérios exigidos, ser devidamente certificado e reconhecido com a respetiva denominação de origem.

Como é que isso se faz? Pois bem, esse é um desafio para quem de direito. É preciso discutir ideias, tomar o pulso à nossa realidade, entender as potencialidades, os problemas e as dificuldades, perceber se existe a capacidade para criar algo de positivo em torno do nosso vinho verde que supere esse fatalismo do passado que associa a cultura do vinho à pobreza e às dificuldades económicas.

É preciso despertar do marasmo em que vivem mergulhados desde há muitos anos os nossos produtores de vinho, muitos deles atidos a políticas de subsídios sem futuro, que não se sabe bem para que servem, tendo em conta que não acrescentam nada de novo, quer no que diz respeito à economia familiar, quer na criação de empregos, empobrece mais do que enriquece, e levar a cabo uma estratégia coletiva que atenue as crises e acabe com esse cíclico queixume de que o vinho não dá nem para as despesas.